Sapatinhos de bebês marcam protesto contra Messias no STF
Um dia antes da sabatina no Senado, grupos pró-vida expõem 400 pares de sapatinhos de bebê em frente à Catedral de Brasília para denunciar o parecer favorável de Jorge Messias ao aborto por assistolia fetal
O gramado em frente à Catedral Metropolitana de Brasília amanheceu nesta terça-feira (28) com uma visão que interrompeu o passo dos pedestres e o fluxo das autoridades na Esplanada. Não eram faixas partidárias ou bandeiras ideológicas comuns, mas 400 pares de sapatinhos de bebê. Cada par, doado posteriormente a instituições de caridade, representava uma ausência – o silêncio das vidas interrompidas pela prática da assistolia fetal.
O ato, organizado pela fundação CitizenGO em parceria com o Instituto Isabel, serviu como um prelúdio dramático para o que deve ocorrer amanhã no Senado Federal: a sabatina de Jorge Messias, atual advogado-geral da União (AGU), indicado por Lula para ocupar a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Embora o rito parlamentar tenha como objetivo avaliar o “notável saber jurídico” e a “reputação ilibada” do indicado, os grupos pró-vida que ocuparam Brasília hoje querem trazer à tona um tema que consideram a digital mais perigosa de Messias: o parecer assinado por ele na ADPF 1141.
No documento, a AGU defendeu a derrubada da norma do Conselho Federal de Medicina (CFM) que proibia o aborto por assistolia fetal em gestações com mais de cinco meses. O procedimento, que consiste em uma injeção letal diretamente no coração do feto, é proibido pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária para o abate de animais devido ao sofrimento extremo.
Para os manifestantes, a confirmação de Jorge Messias no STF não representa a consolidação de uma agenda que permite o aborto até o nono mês de gestação sob o respaldo da Suprema Corte.
Pressão nos gabinetes
Enquanto os sapatinhos eram abençoados por um padre de Brasília ao meio-dia, voluntários e diretores da CitizenGO percorriam os corredores do Senado. O alvo são os 45 senadores classificados como “indecisos”.
"Não estamos diante de um debate teórico, mas de vidas humanas reais que estão sendo assassinadas com respaldo institucional", afirmou Glauciane Teixeira, diretora da CitizenGO Brasil, durante a mobilização.
A estratégia dos grupos conservadores é clara: elevar o custo político do voto favorável a Messias, especialmente entre parlamentares de estados com forte base cristã e conservadora, como Minas Gerais, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.
O que esperar de amanhã
A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) promete ser um teste de fogo para o governo. Jorge Messias, conhecido como Bessias, que tenta se vender como um nome "terrivelmente cristão" para aplacar a resistência evangélica, será confrontado diretamente sobre o tema da assistolia fetal.
Se os senadores seguirão o apelo visual e moral deixado hoje no gramado da Catedral, ou se a articulação política do Planalto falará mais alto, é a pergunta que paira sobre a Praça dos Três Poderes. Por enquanto, o que fica é a imagem dos pequenos calçados vazios — a lembrança incômoda de que, por trás das ADPFs e dos pareceres jurídicos, existem corações que param de bater por canetadas dos mandarins.







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